A Fetiasp (Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação do Estado de SP) e a Uita (União Internacional dos Trabalhadores do Setor da Alimentação) realizaram hoje (dia 9), em São Paulo, uma conferência sobre o “Tráfico, Trabalho Escravo e Direitos Humanos”, um tema pouco debatido no meio sindical, mas que tem muito a ver com o mercado de trabalho e as formas de trabalho, declara Jaqueline Leite, coordenadora-executiva da ONG (Organização não governamental) Chame (Centro Humanitário de Apoio à Mulher), que tem sede na Bahia.
Para Claudia Patrícia de Luna, do escritório de advocacia Luna e Oliveira, é importante discutir o tema no meio sindical porque o tráfico é invisível e “se não vê não combate, mas se conheço dou encaminhamento. A atividade é extremamente lucrativa. No ranking mundial estão os tráficos de drogas, armas e de pessoas. É uma grande violação dos direitos humanos.
“Por ano, o tráfico de pessoas movimenta 32 bilhões de dólares e atinge 2 milhões e 400 mil pessoas. Diferentemente do que imaginamos, esta prática existe ao lado de nossas casas, nas escolas e é feito por pessoas conhecidas e não apenas por pequenos marginais, mas por gente muito grande também, ou seja, independe de classe social”.
Jaqueline Leite e Claudia Patrícia de Luna abordaram o mesmo tema sob ângulos diferentes. “O importante é conhecermos o tema para ajudar a combater esta prática danosa”, disse Melquíades de Araújo, presidente da Fetiasp. Neuza Barbosa, diretora da Federação, afirmou que “os dirigentes sindicais da área da alimentação estão plantando uma sementinha para disseminar as informações entre os trabalhadores”. Já o secretário Carlos Augusto Serroti, da Secretaria Nacional da Alimentação
da Força Sindical, disse estar disposto a aprender para ajudar a acabar com o tráfico de pessoas.
Gerard Iglesias, secretário-geral da Uita, informou que a Uita e o Chame farão um convênio para fazer as abordagens e participar dos atos e dar visibilidade ao tráfico de pessoas e o trabalho escravo. A Uita trabalha há anos com o Movimento Justiça e Direitos Humanos, do Rio Grande do Sul.
Jaqueline discorreu sobre a história do tráfico de pessoas, os argumentos usados em cada época, por exemplo, no pós guerra (I e II) foi uma prática incentivada pelos governos europeus, com promessas de uma vida melhor. Ela contou ainda como é feito o aliciamento das pessoas traficadas e suas vulnerabilidades. “O tráfico não tem a ver com beleza, mas com a vulnerabilidade”, disse.
A primeira é a econômica – falta de trabalho e qualificação profissional, responsabilidade de sustentar a família, trabalho informal mulheres que ganham 40% menos que os homens, trabalho irregular e falta de autonomia.
A segunda vulnerabilidade é social: discriminação de gênero, violência doméstica, violência urbana, discriminação racial e estigmatização. A terceirza é a cultural: a imagem da sensualidade da brasileira, erotismo sexual, por exemplo, nas propagandas de turismo.
Lenda
Quando falamos em gente vendendo gente em pleno século XXI dá impressão que estamos relatando uma lenda. Mas isto acontece por conta da sociedade de classe. Alguém tem mais poder e visa o lucro. Karl Marx diz que o que acontece com estas pessoas é que elas são reduzidas à condição de objeto. Está ligada à questão do consumo: só me serve quando produz lucro para mim.
A advogada disse que ONGs têm recebido denúncias que trabalhadores africanos islâmicos são contratados de forma irregular por empresas terceirizadas de um grande frigorífico brasileiro, para fazer nos animais, o corte de carne que os islâmicos exigem para consumir o produto, mas que é difícil comprovar a situação análoga a escravidão porque quando chega a fiscalização, os trabalhadores são deslocados para outras áreas.
“Nossa grande frustração é não ter uma lei específica para prevenção, responsabilidade e acolhimento das vítimas de tráfico”, disse Claudia, embora lembre que o Brasil lançou em fevereiro deste ano o 2º Plano sobre a Política Nacional de Enfrentamento do Tráfico de Pessoas.
Segundo ela, o papel das entidades sindicais será criar mecanismos para multiplicar as informações e esclarecer os trabalhadores sobre o tema.
Outubro Rosa
Durante a conferência, a Federação lançou a campanha Outubro Rosa, um movimento popular reconhecido internacionalmente, originário nos Estados Unidos em 1997, para disseminar a importância da prevenção do câncer de mama. É comemorado em todo o mundo e o nome remete à cor do laço rosa que simboliza, mundialmente, a luta contra o câncer de mama.
FONTE: Imprensa Fetiasp



















